Política
Presidenciais 2026
Participação em declínio. Estudo mostra evolução das presidenciais
No próximo domingo realiza-se a 11ª eleição presidencial em Portugal e aquela que reúne um maior número de candidatos. Desde a década de 1990 que se regista um declínio na participação dos eleitores.
Foram divulgados esta segunda-feira os números do estudo “Abstenção Eleitoral em Portugal: Mecanismos, Impactos e Soluções”, da Pordata. Este trabalho da base de dados estatísticos da Fundação Francisco Manuel dos Santos aponta para um recuo da participação eleitoral desde os anos de 1990.
O estudo combina métodos quantitativos e qualitativos, designadamente um inquérito a 2.405 eleitores (amostra representativa da população), aplicado entre dezembro de 2021 e janeiro de 2022 a seis focus groups com abstencionistas ou votantes intermitentes e três encontros com representantes políticos.
A análise, elaborada pelos investigadores João Cancela e José Santana Pereira, examina os padrões de participação dos cidadãos neste tipo de escrutínio, procurando identificar tendências e extrair pistas analíticas sobre a relação dos portugueses com o processo de escolha do presidente da República.
Nas primeiras eleições presidenciais - contexto em que só os recenseados em território nacional podiam votar -, a participação oficial oscilou entre os 75 por cento (1976) e os 84 por cento (1980). Entre 1991 e 2021, o valor mais elevado registou-se em 1996 (66 por cento), tendo-se atingido um mínimo histórico de participação em 2021 (39 por cento).
No entanto, as taxas de participação oficial não refletem o fenómeno da participação eleitoral com total precisão. A Revisão Constitucional de 1997, que alargou o direito de voto em presidenciais aos cidadãos residentes no estrangeiro, contribuiu para um aumento do número de recenseados que podem votar nestas eleições, mas não se traduziu num crescimento proporcional do número de votantes efetivos, refletindo a tendência de os emigrantes votarem menos.
Em 2021, por exemplo, a taxa de participação global situou-se nos 39 por cento. Contudo, a participação oficial entre os recenseados em território nacional foi mais elevada, fixando-se nos 45 por cento.
Descontando os eleitores que, apesar de continuarem recenseados em Portugal vivem no estrangeiro, o estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos, obteve uma estimativa mais próxima da realidade, que aponta para uma participação de 51 por cento nas últimas eleições presidenciais.
Existe uma forte dependência da participação em relação à competitividade percebida do ato eleitoral. Eleições em que o presidente da República em funções não é candidato à reeleição tendem a gerar níveis de mobilização superiores, ao passo que contextos de recandidatura – sobretudo quando a vitória do candidato favorito é amplamente antecipada – estão associados a taxas de abstenção mais elevadas.
Tal como nas eleições legislativas, a participação em presidenciais é mais elevada nas áreas urbanas e no litoral, enquanto no interior, nas zonas menos densamente povoadas e nas Regiões Autónomas, em especial nos Açores, registam-se níveis mais baixos.
Os eleitores mais jovens apresentam níveis substancialmente mais baixos de participação, enquanto os eleitores com 66 anos ou mais revelam uma propensão claramente superior para votar sempre em eleições presidenciais, bem como uma menor incidência de abstenção persistente.
A participação eleitoral em presidenciais é menor entre os eleitores de classes sociais mais baixas. Também os eleitores sem diploma superior tendem a votar menos. As diferenças de participação por género são insignificantes.
Tal como noutras eleições, a probabilidade de votar em presidenciais é influenciada pela distância do local de voto. Enquanto 79 por cento dos eleitores que residem a menos de 5 minutos das urnas dizem votar sempre, a percentagem baixa para 46 por cento entre os que residem a mais de 30 minutos de distância.Desde as primeiras eleições presidenciais, em 1976, até às mais recentes, em 2021, o eleitorado português aumentou 44 por cento - ou 70 por cento se se incluírem os eleitores emigrantes, que passaram a votar nestas eleições a partir de 2001 - e todos os presidentes eleitos para um primeiro mandato foram reconduzidos.
A análise das dez eleições presidenciais realizadas em democracia evidencia padrões recorrentes de participação, reeleição e comportamento eleitoral, mas também revela singularidades como o facto de o distrito de Santarém ter sido sempre um espelho da votação global, com um padrão de voto sistematicamente semelhante ao resultado nacional.
Quais foram as eleições mais renhidas?
Nos últimos 50 anos, Portugal teve dez eleições presidenciais. Entre 1976 e 2021, o número de eleitores em território nacional aumentou 44 por cento. Este aumento passa a ser de 70 por cento se se incluir os círculos do estrangeiro, com um valor particularmente expressivo, de 1.549.380 eleitores, em 2021.
As eleições mais renhidas foram as de 1986, na segunda volta que opôs Mário Sores a Freitas do Amaral, tanto em número de votos (3.015.350 para Mário Soares e 2.864.728 para Freitas do Amaral, uma diferença de 150.622 votos) como em percentagem de votos válidos em cada um: 51,3 por cento contra 48,7 por centoComo evoluiu a abstenção?
Em quase todas as eleições para um segundo mandato houve um aumento da abstenção, à exceção das eleições de 1976 e de 1980.
O maior aumento da abstenção ocorreu na reeleição de Mário Soares (16 p.p.). A reeleição de Marcelo Rebelo de Sousa foi a que menos viu aumentar a taxa de abstenção (9 p.p.), apesar de as eleições de 2016 e 2021 terem sido das que registaram maiores taxas de abstenção em presidenciais (51,3 por cento e 60,8 por cento respetivamente).
Todos os presidentes eleitos para um primeiro mandato (Ramalho Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio, Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de Sousa) foram reeleitos e todos, à exceção de Ramalho Eanes, tiveram uma maior percentagem de votos válidos na sua reeleição. Mário Soares foi quem mais aumentou essa percentagem, em 19 pontos percentuais.A votação dos emigrantes portugueses residentes no estrangeiro, possível a partir das eleições de 2001, deu uma maior percentagem de votos ao candidato vencedor do que a votação dos residentes em território nacional em quatro das cinco eleições realizadas desde então.
A exceção foram as últimas presidenciais, para a reeleição de Marcelo Rebelo de Sousa, em que 61 por cento dos votos válidos dos residentes em território nacional superaram os 53 por cento dos emigrantes no estrangeiro.
Foram quatro os candidatos vencidos numa eleição para um 1.º mandato que concorreram à eleição seguinte: Otelo Saraiva de Carvalho, Manuel Alegre, Marisa Matias e Vitorino Silva. Todos tiveram menor votação, com destaque para Otelo Saraiva de Carvalho que baixou de 16,5 por cento para 1,5 por cento.
Nas eleições presidenciais, o padrão de votos do distrito de Santarém esteve sempre próximo da votação nacional.
Nas dez eleições presidenciais, o desvio de votos, em percentagem, de qualquer candidato, foi sempre inferior a cinco pontos percentuais. O mesmo aconteceu com os distritos do Porto e de Castelo Branco em oito das eleições. Em sentido inverso, o distrito de Beja teve sempre um padrão de votos muito díspar do nacional, sempre com uma diferença, para algum candidato, superior a dez pontos percentuais, em todas as eleições.Inflação dos cadernos eleitorais
A comparação entre o total de eleitores registados nos cadernos eleitorais do território nacional e os cidadãos efetivamente residentes e com direito de votar em presidenciais (nacionalidade portuguesa e 18 ou mais anos de idade), revela que o inflacionamento dos cadernos eleitorais aumentou até às presidenciais de 1996, baixou nas duas eleições seguintes, de 2001 e 2006, e aumentou em 2011 para valores já próximos dos mais recentes (cerca de 13 por cento).
Foi nas eleições de 1996 que se registou o maior impacto do inflacionamento dos cadernos eleitorais na taxa de abstenção: a taxa de abstenção oficial foi de 34 por cento, quando a taxa de abstenção real ficaria pouco acima dos 25 por cento (uma abstenção técnica de 8,2 pontos percentuais).
Em 2021, a abstenção técnica também foi das mais elevadas (6,6 p.p.), para uma taxa de abstenção oficial de 54,6 por cento e uma taxa de abstenção real de 48,6. Note-se que, quanto menor for a taxa de abstenção oficial maior o impacto do inflacionamento.
No top três dos distritos com maiores taxas de inflacionamento dos cadernos eleitorais (média das últimas eleições) estão Vila Real, Bragança e Viana do Castelo, todos com taxas acima dos 20 por cento.
Porto e Évora, são os distritos com menor inflacionamento (cerca de oito por cento).
A tendência em 2021 foi de uma maior aproximação aos valores reais em todos os distritos, à exceção de Lisboa e Faro que passaram de taxas de inflacionamento de 13 por cento para 16 por cento e de 17 por cento para 21 por cento, respetivamente.
O estudo combina métodos quantitativos e qualitativos, designadamente um inquérito a 2.405 eleitores (amostra representativa da população), aplicado entre dezembro de 2021 e janeiro de 2022 a seis focus groups com abstencionistas ou votantes intermitentes e três encontros com representantes políticos.
A análise, elaborada pelos investigadores João Cancela e José Santana Pereira, examina os padrões de participação dos cidadãos neste tipo de escrutínio, procurando identificar tendências e extrair pistas analíticas sobre a relação dos portugueses com o processo de escolha do presidente da República.
Nas primeiras eleições presidenciais - contexto em que só os recenseados em território nacional podiam votar -, a participação oficial oscilou entre os 75 por cento (1976) e os 84 por cento (1980). Entre 1991 e 2021, o valor mais elevado registou-se em 1996 (66 por cento), tendo-se atingido um mínimo histórico de participação em 2021 (39 por cento).
No entanto, as taxas de participação oficial não refletem o fenómeno da participação eleitoral com total precisão. A Revisão Constitucional de 1997, que alargou o direito de voto em presidenciais aos cidadãos residentes no estrangeiro, contribuiu para um aumento do número de recenseados que podem votar nestas eleições, mas não se traduziu num crescimento proporcional do número de votantes efetivos, refletindo a tendência de os emigrantes votarem menos.
Em 2021, por exemplo, a taxa de participação global situou-se nos 39 por cento. Contudo, a participação oficial entre os recenseados em território nacional foi mais elevada, fixando-se nos 45 por cento.
Descontando os eleitores que, apesar de continuarem recenseados em Portugal vivem no estrangeiro, o estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos, obteve uma estimativa mais próxima da realidade, que aponta para uma participação de 51 por cento nas últimas eleições presidenciais.
Existe uma forte dependência da participação em relação à competitividade percebida do ato eleitoral. Eleições em que o presidente da República em funções não é candidato à reeleição tendem a gerar níveis de mobilização superiores, ao passo que contextos de recandidatura – sobretudo quando a vitória do candidato favorito é amplamente antecipada – estão associados a taxas de abstenção mais elevadas.
No caso de 2021, este efeito foi agravado por um contexto pandémico particularmente adverso à participação eleitoral.
Apenas uma minoria de nove por cento dos inquiridos no estudo considera que as presidenciais são as eleições com maior impacto direto na sua vida. Esta opinião é significativamente mais frequente entre abstencionistas e votantes intermitentes (16 por cento) do que entre eleitores assíduos (seis por cento).
Os resultados do estudo sugerem que os eleitores mais assíduos tendem a encarar as eleições legislativas como o momento central do processo democrático, enquanto que os votantes menos regulares demonstram uma maior propensão para valorizar as eleições presidenciais, que têm um carácter mais personalizado.
Os resultados do estudo sugerem que os eleitores mais assíduos tendem a encarar as eleições legislativas como o momento central do processo democrático, enquanto que os votantes menos regulares demonstram uma maior propensão para valorizar as eleições presidenciais, que têm um carácter mais personalizado.
Tal como nas eleições legislativas, a participação em presidenciais é mais elevada nas áreas urbanas e no litoral, enquanto no interior, nas zonas menos densamente povoadas e nas Regiões Autónomas, em especial nos Açores, registam-se níveis mais baixos.
Os eleitores mais jovens apresentam níveis substancialmente mais baixos de participação, enquanto os eleitores com 66 anos ou mais revelam uma propensão claramente superior para votar sempre em eleições presidenciais, bem como uma menor incidência de abstenção persistente.
A participação eleitoral em presidenciais é menor entre os eleitores de classes sociais mais baixas. Também os eleitores sem diploma superior tendem a votar menos. As diferenças de participação por género são insignificantes.
Tal como noutras eleições, a probabilidade de votar em presidenciais é influenciada pela distância do local de voto. Enquanto 79 por cento dos eleitores que residem a menos de 5 minutos das urnas dizem votar sempre, a percentagem baixa para 46 por cento entre os que residem a mais de 30 minutos de distância.Desde as primeiras eleições presidenciais, em 1976, até às mais recentes, em 2021, o eleitorado português aumentou 44 por cento - ou 70 por cento se se incluírem os eleitores emigrantes, que passaram a votar nestas eleições a partir de 2001 - e todos os presidentes eleitos para um primeiro mandato foram reconduzidos.
A análise das dez eleições presidenciais realizadas em democracia evidencia padrões recorrentes de participação, reeleição e comportamento eleitoral, mas também revela singularidades como o facto de o distrito de Santarém ter sido sempre um espelho da votação global, com um padrão de voto sistematicamente semelhante ao resultado nacional.
Quais foram as eleições mais renhidas?
Nos últimos 50 anos, Portugal teve dez eleições presidenciais. Entre 1976 e 2021, o número de eleitores em território nacional aumentou 44 por cento. Este aumento passa a ser de 70 por cento se se incluir os círculos do estrangeiro, com um valor particularmente expressivo, de 1.549.380 eleitores, em 2021.
As eleições mais renhidas foram as de 1986, na segunda volta que opôs Mário Sores a Freitas do Amaral, tanto em número de votos (3.015.350 para Mário Soares e 2.864.728 para Freitas do Amaral, uma diferença de 150.622 votos) como em percentagem de votos válidos em cada um: 51,3 por cento contra 48,7 por centoComo evoluiu a abstenção?
Em quase todas as eleições para um segundo mandato houve um aumento da abstenção, à exceção das eleições de 1976 e de 1980.
O maior aumento da abstenção ocorreu na reeleição de Mário Soares (16 p.p.). A reeleição de Marcelo Rebelo de Sousa foi a que menos viu aumentar a taxa de abstenção (9 p.p.), apesar de as eleições de 2016 e 2021 terem sido das que registaram maiores taxas de abstenção em presidenciais (51,3 por cento e 60,8 por cento respetivamente).
Todos os presidentes eleitos para um primeiro mandato (Ramalho Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio, Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de Sousa) foram reeleitos e todos, à exceção de Ramalho Eanes, tiveram uma maior percentagem de votos válidos na sua reeleição. Mário Soares foi quem mais aumentou essa percentagem, em 19 pontos percentuais.A votação dos emigrantes portugueses residentes no estrangeiro, possível a partir das eleições de 2001, deu uma maior percentagem de votos ao candidato vencedor do que a votação dos residentes em território nacional em quatro das cinco eleições realizadas desde então.
A exceção foram as últimas presidenciais, para a reeleição de Marcelo Rebelo de Sousa, em que 61 por cento dos votos válidos dos residentes em território nacional superaram os 53 por cento dos emigrantes no estrangeiro.
Foram quatro os candidatos vencidos numa eleição para um 1.º mandato que concorreram à eleição seguinte: Otelo Saraiva de Carvalho, Manuel Alegre, Marisa Matias e Vitorino Silva. Todos tiveram menor votação, com destaque para Otelo Saraiva de Carvalho que baixou de 16,5 por cento para 1,5 por cento.
Nas eleições presidenciais, o padrão de votos do distrito de Santarém esteve sempre próximo da votação nacional.
Nas dez eleições presidenciais, o desvio de votos, em percentagem, de qualquer candidato, foi sempre inferior a cinco pontos percentuais. O mesmo aconteceu com os distritos do Porto e de Castelo Branco em oito das eleições. Em sentido inverso, o distrito de Beja teve sempre um padrão de votos muito díspar do nacional, sempre com uma diferença, para algum candidato, superior a dez pontos percentuais, em todas as eleições.Inflação dos cadernos eleitorais
A comparação entre o total de eleitores registados nos cadernos eleitorais do território nacional e os cidadãos efetivamente residentes e com direito de votar em presidenciais (nacionalidade portuguesa e 18 ou mais anos de idade), revela que o inflacionamento dos cadernos eleitorais aumentou até às presidenciais de 1996, baixou nas duas eleições seguintes, de 2001 e 2006, e aumentou em 2011 para valores já próximos dos mais recentes (cerca de 13 por cento).
Foi nas eleições de 1996 que se registou o maior impacto do inflacionamento dos cadernos eleitorais na taxa de abstenção: a taxa de abstenção oficial foi de 34 por cento, quando a taxa de abstenção real ficaria pouco acima dos 25 por cento (uma abstenção técnica de 8,2 pontos percentuais).
Em 2021, a abstenção técnica também foi das mais elevadas (6,6 p.p.), para uma taxa de abstenção oficial de 54,6 por cento e uma taxa de abstenção real de 48,6. Note-se que, quanto menor for a taxa de abstenção oficial maior o impacto do inflacionamento.
No top três dos distritos com maiores taxas de inflacionamento dos cadernos eleitorais (média das últimas eleições) estão Vila Real, Bragança e Viana do Castelo, todos com taxas acima dos 20 por cento.
Porto e Évora, são os distritos com menor inflacionamento (cerca de oito por cento).
A tendência em 2021 foi de uma maior aproximação aos valores reais em todos os distritos, à exceção de Lisboa e Faro que passaram de taxas de inflacionamento de 13 por cento para 16 por cento e de 17 por cento para 21 por cento, respetivamente.